domingo, 25 de setembro de 2011

ENSINO RELIGIOSO EM XEQUE

arte/TNSTF

Isaac Ribeiro - repórter

Desde que o Brasil deixou de ser colônia portuguesa que a Constituição define o nosso país como laico - ou seja, estado sem religião oficial, imparcial e neutro perante crenças. Mas desde 1890, a Carta Magna da Nação também determina a oferta do ensino religioso nas escolas, porém de forma opcional. Esse antagonismo oficial tem fomentado a discussão sobre educação religiosa em nossas terras, principalmente quanto aos modelos adotados pelos educadores. A questão foi parar na Justiça.

julgará duas ações diretas de inconstitucionalidade, questionando o modelo do ensino religioso nas escolas brasileirasSTF julgará duas ações diretas de inconstitucionalidade, questionando o modelo do ensino religioso nas escolas brasileiras
Duas ações diretas de inconstitucionalidade já foram encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) colocando em xeque o espaço que o ensino religioso ocupa hoje na escola, enquanto instituição.

O ministro Carllos Ayres, relator da ação, considera inadmissível a escola funcionar como espaço para catequese ou proselitismo religioso, católico ou de qualquer outra religião. Já a autora da ação, a vice-procuradora Deborah Duprat, defende tratar o assunto sob a ótica da história das religiões.

A polêmica parece estar apenas começando e deve esquentar quando o STF for julgar as ações. "O Estado é laico e, quando fala na possibilidade de previsão da oferta de ensino religioso em caráter facultativo nas escolas, tem que ser ensino religioso necessariamente não confessional (não relacionado a uma determinada confissão ou religião). Ou seja: a história, a doutrina das religiões e até a falta da religião, é preciso que essa informação seja completa. Ao lado das várias doutrinas, há também aquelas pessoas que pregam a ausência de qualquer crença como os agnósticos", analisa Deborah Duprat, em entrevista à Agência Brasil, publicada mês passado.

PRÓS E CONTRAS

Professor da pós-graduação do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Arnon de Andrade é contra o ensino religioso nas escolas, principalmente nas públicas. Em sua avaliação, a educação religiosa é uma função da família e não do Estado, além de representar uma forma de pressão de determinados grupos religiosos.

"Em todo lugar do mundo onde há repúblicas laicas, como a França, por exemplo, é um problema da família e não do Estado. Sendo laico, ele não pode optar por crença específica, ou terá que fazer um currículo onde todas elas deverão ser representadas; candomblé, evangelismo, igreja católica romana e brasileira", reflete Arnon de Andrade.

Já Jodalva de Oliveira, coordenadora de ensino religioso em um tradicional colégio católico de Natal, considera "de fundamental importância" a inclusão da disciplina no currículo escolar. "Isso no sentido de fazer o aluno reconhecer a diversidade do outro no contexto dos valores do dia-a-dia."

Ensino religioso deve respeitar diversidade de crença dos alunos

A proposta da vice-procuradora-geral da República, Debora Duprat, de aproximar o ensino religioso do formato da história das religiões vem sendo bem recebida por pedagogos. Para eles, a matéria deve ser mesmo tratada como conteúdo de conhecimento, afastando qualquer hipótese de catequese e proselitismo. Outra tendência forte é o respeito pela diversidade.

Coordenadora pedagógica de um colégio católico natalense, Ester Yglesias classifica o ensino religioso como uma área de conhecimento igual a todas as outras. Diferente de antigamente, quando a religiosidade era tratada de forma mais temática, o foco hoje vai para os valores humanos, fomentando discussões de temas atuais, sobre o que acontece com a juventude e com a humanidade de uma forma mais ampla.

"E isso é feito em sala de aula com o auxílio de vídeos, quadro virtual, pesquisas, discussões, onde os alunos são trabalhados para serem reflexivos, críticos, de uma forma que eles possam se posicionar independentemente da religião deles, pois temos alunos que são católicos, evangélicos, espíritas, agnósticos, ateus. Nós temos uma diversidade religiosa", esclarece Ester Yglesias.

De acordo com ela, a grande discussão do ensino religioso, atualmente, é a vida. Os jovens são estimulados a refletir sobre o que é a vida e sobre os objetivos de vida de cada um. "Se você parar para conversar, eles não sabem te dizer. O que eu, enquanto ser humano, posso fazer pelo meu próximo? E para mim mesmo? Trabalhamos muito também a questão do ser e não do ter."

Jodalva de Oliveira, coordenadora do Serviço de Educação Religiosa de outro colégio de tradição católica natalense conta que lá o ensino de religião é tratado como mais um componente curricular, com atividades diferenciadas, provas e avaliações. "Tem a mesma configuração de qualquer área de conhecimento, e vai desde a Educação Infantil até o terceiro ano do Ensino Médio."

Para Ester Yglesias, o ensino religioso anda emparedado com o de História. E, sempre que possível, acontecimentos ligados à religião são relacionados a fatos históricos, durante as aulas.

"Quando você consegue fazer um trabalho interdisciplinar, você consegue segurar mais o aluno, porque ele está com um conteúdo de história que entra numa avaliação; e o professor de ensino religioso está coadunando, complementando, aprofundando. Há uma interação não só com a religião, mas com todas as disciplinas", esclarece a coordenadora pedagógica.

Já Fábio Lima dos Santos, coordenador da Pastoral do mesmo colégio de Ester Yglesias, comenta ser a metodologia das aulas do ensino religioso desenvolvida a partir do lúdico, com uso de textos, fábulas, contos, vídeos, recursos de teatro, porém dentro de um conteúdo sequenciado de conhecimento. "O professor diz: Hoje nós vamos aprender sobre o budismo. Então, serão vistas as principais ideias, toda a história da religião, alguns contos budistas, vídeos documentários coletados de pessoas que visitaram determinado país, que vivencia determinado tipo de religião. E o aluno também pode se expressar", explica.

Fábio Lima esclarece ainda que no colégio em que trabalha, o ensino religioso não é avaliado da forma convencional, estipulando notas. A avaliação é feita de forma contínua, ao longo da administração do conteúdo. Se o aluno não está apresentando a resposta esperada, ele é chamado para uma conversa.

Valores humanos são ensinados em sala de aula

Um ponto em comum foi ressaltado pelos entrevistados: o respeito à diversidade religiosa. Antes, já no ato da matrícula, o aluno devia responder qual era a sua religião, como lembra o coordenador de pastoral Fábio Lima, citando a nomenclatura de "aula de religião" dada à disciplina nos anos 80. Em sua análise, isso poderia dar vazão a algum tipo de distinção. "Hoje não usamos esse termo, mas sim, ensino religioso. Isso para dizer que existe a aceitação de outras ideias religiosas, ou até daquele menino que não acredita em religiões."

É por isso, segundo ele, que são passados valores humanos às turmas, bem como a ideia da diversidade religiosa, a tolerância e o amor ao próximo. "Mostramos que cada indivíduo tem o direito de exercer a sua religião, sua crença, respeitar sua origem, sua raça. As aulas são direcionadas nesse sentido", comenta Fábio Lima.

Ele diz não lembrar de conflitos motivados por diferenças religiosas na escola. Se existe algum aluno com predisposição para o extremismo, logo é mostrado um outro caminho a ele. "Nosso instante é de reflexão. Eu posso citar o budismo, mas até mesmo no cristianismo, no hinduísmo, em qualquer tipo de denominação religiosa tem o valor que deve ser empregado ao ser humano que é inerente nosso."

As aulas de ensino religioso para o coordenador são, hoje, muito mais um espaço para reflexões do ser humano, independente de sua crença. "Vamos analisar porque existem tantos conflitos no Oriente Médio. Será aquele povo, se tivesse conhecimento de outros valores, poderia refletir de uma forma diferente? Será que eles deixariam o fundamentalismo e partir para a ideia que existem outras crenças e que você precisa realmente respeitar outras realidades?"

Enfatizando o respeito a ser dado a cada crença e citando uma suposta prevalência do catolicismo no ensino religioso, o professor da pós-graduação do Centro de Educação da UFRN, Arnon de Andrade questiona como o ensino religioso funciona em uma cidade como Salvador (BA), onde os cultos afros predominam. "Há também aqueles que não acreditam e também devem ser respeitados. E se um indiano se mudar para cá? E se um palestino vier morar aqui?"

Do ponto de vista pedagógico, Arnon de Andrade acredita que o ensino religioso sobrecarrega os currículos, extrapolar os prazo fixado pela legislação.
Bate-papo: Ester Yglesias » coordenadora pedagógica

Como é a aceitação dos alunos ao ensino religioso? Existe muita evasão? Eles se prendem ao conteúdo passado?

O mais importante é que a temática seja bem colocada, seja ela qual for. Se ela for dinâmica, interativa, crítica, reflexiva, interativa, com certeza o professor consegue prender a atenção do aluno. É difícil trabalhar Lutero com eles? É difícil. Mas se você coloca para eles que existe uma situação atual, em detrimento de algo que já foi deixado por alguém na história, e se contextualiza a história para se chegar ao que se tem hoje, fica mais fácil de se trabalhar. Essas reflexões são importantes porque em casa eles não têm tempo para pensar nisso. Hoje a família não tem isso como prioridade; e ela passa essa função para a escola. O nosso trabalho é dar essa continuidade já que somos uma escola católica, e baseamos a nossa prática numa filosofia, que prega exatamente isso: fazer bons cristãos e virtuosos cidadãos. E só vamos conseguir isso se dermos a oportunidade a eles de se colocar, de dizer o que pensa, porque a partir disso nós direcionamos o trabalho. Você percebe que tem alguma turma com questões disciplinares, então vamos para essa sala, tem todo um planejamento; vamos refletir com eles o que é correto como atitude enquanto estudante e ser humano, em respeito ao próximo - pois quando você está conversando em sala de aula, você não está só se atrapalhando; você está atrapalhando o seu próximo. E esses são valores cristãos, que não são só católicos. A aceitação deles é boa porque é um momento que eles têm para conversar, para falar; às vezes até para colocar algo de si de uma forma indireta. Muitas vezes nessas aulas, nas entrelinhas, percebemos algumas coisas no individual do aluno. Aí, chamamos ele depois, conversamos com ele, perguntamos porque ele posicionou de determinada maneira, o que ele pensou... Aí, você vai descobrir uma história de vida por trás de cada uma daquelas palavras. Então, esse é um momento muito gostoso para eles, muito amplo. Lógico que tem aqueles que não se interessam muito, mas o professor tem que ter um jogo ainda maior de cintura.

E como é feita a avaliação dos alunos? Há reprovação?

Tudo ainda gira muito em torno da questão da nota. No ensino religioso, os alunos são avaliados pela postura deles. Se o nosso projeto se propõe a fazer uma mudança de postura em algum aspecto; se eles não mudaram de postura, o efeito que aquelas aulas fizeram não foi o esperado. Então a gente para e retoma alguns pontos. Não há repetição de ano. O conhecimento que se propôs para aquela aula foi dado, mas não atingiu o objetivo. Então fazemos outro tipo de proposta para que a gente dê um encaminhamento.

Alguns educadores defendem que o ensino religioso não é assunto para ser tratado por instituições, como Estado e Escola, mas sim pela Família. O que pensa?

Acho que os pais têm opção de escolha. Se eles colocam o filho aqui, eles já têm um intuito da formação da religiosidade, da cidadania, dos valores. Não que outra escola não trabalhe valores; com certeza deve trabalhar. Mas se o pai não tem essa crença, ele não procura uma igreja católica. Acho que não cabe a nós julgar. Normalmente, o pai quando vem com o filho para uma escola católica ele vem com essa opção. "Por ser uma escola católica, eu gostaria que meu filho estudasse aqui, porque vocês trabalham os preceitos da religiosidade, condutas de formação que são importantes hoje para a formação de qualquer ser humano e que, às vezes, a família, pela correria da vida, não tem tanto tempo de dar em casa. E nós, enquanto pais e educadores, somos modelos.

Fonte:tribunadonorte.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário